Água das Casas
ÁGUA DAS CASAS
Elementos históricos
Água das Casas é uma pequena aldeia localizada no extremo norte do concelho de Abrantes, na freguesia de Fontes, junto à albufeira da Barragem de Castelo do Bode, num dos braços que se estendeu pelo vale onde, em tempos, correu a ribeira do Codes.
A ocupação humana nesta região vem de épocas ancestrais, mais exatamente da Idade do Bronze. Em vários locais junto de Água das Casas temos vestígios de conheiras, o que deixa entender que a presença romana também assumiu aqui alguma importância.
No que diz respeito ao topónimo Água das Casas, é possível encontrá-lo em documentos do século XIV. Em 1396, quando foi feito o levantamento do primeiro Tombo da Estremadura, o Maxial constituía uma “comarca coutada” que agregava ao todo 28 herdades ou casais, dos quais apenas 13 estavam povoados, entre os quais se identifica Água das Casas.
Em termos militares, em meados do século XVIII, mais exatamente, em 1762-1763, todo o vale da ribeira do Codes (linhas entre o Tejo e o Zêzere), consequentemente o espaço em que se integra Água das Casas, assumiu um papel decisivo no posicionamento das tropas portuguesas comandadas pelo Conde de Lippe, para fazer face ao avanço espanhol. Os confrontos, porém, nunca chegaram a vias de facto, daí a denominação de "Guerra Fantástica" atribuída a esta movimentação de tropas, que por aqui pôs em ação mais de 10000 homens do exército luso-britânico.
A aldeia, no começo do século XIX, mais exatamente em 1807, como aconteceu um pouco por toda a região, foi alvo de saques no decurso da 1.ª Invasão Francesa. Os mais antigos relatam a abertura forçada das arcas de cereais pelos invasores, que foram transformadas em manjedouras para os seus cavalos. Até há pouco tempo, ocasionalmente encontravam-se restos de talhas enterrados, tanto no interior de antigas habitações como em zonas agrícolas, com o objetivo de esconder os enchidos e o azeite das tropas napoleónicas.
A localização de um pequeno núcleo habitacional nas proximidades de nascentes e regatos na margem esquerda da ribeira do Codes, a confluir para este curso de água, será a principal razão que determinou a denominação atribuída à localidade. Ainda hoje, a disponibilidade de águas de nascente é um dos aspetos que melhor caracteriza Água das Casas e terá sido decisiva para a fertilidade das terras e consequente fixação da população.
A tradição oral aponta para a fixação primitiva da aldeia numa zona designada Casalinho, na ligação para Vale de Açor. Entretanto, uma família ter-se-á instalado na Esteveira, localizada a duas centenas de metros do atual povoado, na mesma direção. Nesse local percebem-se ainda alguns vestígios de antigas habitações e, em Água das Casas, até há poucos anos, aos descendentes das famílias que terão habitado esse espaço era atribuída a alcunha “Esteveiras”.
O núcleo populacional atual formou-se com a chegada de seis famílias: "Crespos" (Dias/Alves); Lombões; Godinhos; Franciscos; Baptistas, provenientes do Mógão, concelho de Sardoal; "Mouros", oriundos dos Estevais, concelho de Vila de Rei, cujo apelido é atualmente Moura. A partilha das águas de rega tinha como ponto de partida a divisão por estas famílias.
Água das Casas distribui-se por três espaços diferenciados: Casal, núcleo habitacional onde o povoado se terá estruturado numa primeira fase; Cabeço, zona elevada, na continuidade do Casal, para onde a aldeia cresceu; Barro, zona baixa, de terras argilosas, com casas dispersas, que ganhou alguma importância com a construção e beneficiação das estradas de acesso na segunda metade do século XX.
Em termos demográficos, a aldeia chegou a atingir os 210 habitantes em 1940. Todavia, daí em diante fez-se sentir uma diminuição acentuada. Em 2001, a população da aldeia perfazia 63 habitantes e na atualidade apenas vivem em Água das Casas, em permanência, cerca de duas dezenas de pessoas.
Há anos que não vive em Água das Casas qualquer jovem em idade escolar e a população residente encontra-se bastante envelhecida. Apesar de ocorrer a recuperação de algumas habitações, ela é feita por “filhos da terra” que depois de aposentados regressam, temporariamente ou a título definitivo, às suas origens. Apesar deste envelhecimento dos residentes, a aldeia tem podido sobreviver – com algumas das suas tradições e uma parte dos seus campos cultivados – graças a uma geração que nela nasceu e que aqui passa muitos fins de semana a conviver e a trabalhar.
A água, sempre a água
Se há elemento que condicionou e determinou a existência de Água das Casas, tal papel foi assumido pela água. Muito do destino da aldeia foi traçado sobre linhas de água. A localidade instalou-se onde o regadio era possível e buscou na fertilidade dos nateiros da ribeira do Codes o milho para o seu sustento. Os nateiros eram propriedades fáceis de regar, especialmente férteis, onde o milho produzia mais do que em qualquer outro sítio e onde as abóboras atingiam dimensões extraordinárias.
Ao longo de todo o ano, os rapazes e alguns homens aproveitavam os tempos livres para pescar em pequenas lagoas que a ribeira do Codes formava, onde conseguiam capturar peixes como bordalos ou bogas. Alguns, mais hábeis, procuravam, entre as rochas, exemplares de outra dimensão.
Todavia, nem só o Codes ditou a sua lei, pois também as terras de cota mais elevada tiveram direito à água de duas levadas – do Vale e do Rabaçal – que deram, ao longo dos tempos, noites em claro a muitas gerações. Até há 40 anos, altura em que foram construídos vários tanques, era habitual as mulheres regarem durante a noite, qualquer que fosse a hora. Em tempos mais recuados, ia-se, à luz de uma candeia de azeite, "virar" (alterar o encaminhamento) da água à meia-noite ao Vale – nascente afastada da aldeia
Em janeiro de 1951 foi inaugurada a Barragem de Castelo do Bode. Durante várias décadas, esta foi a maior albufeira portuguesa, com uma extensão de 60 km no leito do rio Zêzere. A construção da barragem de Castelo de Bode transformou a paisagem e a vida das pessoas neste troço final do afluente do Zêzere que é o Codes. A aldeia de Água das Casas, com a subida das águas, transformou-se numa pequena península. Os versos do poeta popular Manuel Coelho, das Valadas - Vila de Rei, nas muitas quadras que escreveu sobre o enchimento da albufeira dão-nos conta das dificuldades que advieram para a região, nomeadamente para Água das Casas:
De Constância ao cimo do Zêzere
Digo eu com ligeireza
Em parte nenhuma há alegria
E em todo o lado há tristeza
Adeus ó Água das Casas
Há muito ano te conheço
A ti cobriram as melhores terras
E deixaram o cimo do cabeço
E assim, de forma rápida e surpreendente, desapareceram os nateiros e submergiu a Foz da Ribeira, também conhecida por Coucão, localidade situada defronte de Água das Casas, do lado de lá da ribeira do Codes, já no concelho de Vila de Rei. A albufeira também cobriu engenhos, como azenhas e lagares, que usavam a energia das águas do Codes.
Com a subida da albufeira ficou cortada a ligação com o concelho de Vila de Rei, com que a população de Água das Casas mantinha grande proximidade e muito bom relacionamento. A transposição do Codes, que se fazia por uma ponte, foi substituída por uma viagem de barco, ficando um barqueiro de serviço, desde o nascer ao pôr-do-sol.
A albufeira passou a ser, também, o sítio onde as mulheres iam lavar a roupa e onde os mais novos, durante o verão, se banhavam. As mulheres transportavam a roupa à cabeça, em cochos de cortiça, e lavavam-na em lajes de xisto, que estabilizavam sobre várias pedras. A Corgadeira, a Barca (designada assim por aí acostar a embarcação do barqueiro) e os Sobreiros da Eira assumiram-se como os locais mais apropriados para os banhos e para lavagem da roupa.
Na atualidade, a albufeira é um dos elementos mais atrativos da localidade. Para além de contribuir para que veraneantes de outras localidades afluam à aldeia, é determinante para que muitos jovens, descendentes de habitantes de Água das Casas, continuem a ter um carinho especial pela terra dos seus avós e ali passem uma parte das suas férias de verão, contribuindo, deste modo, para a manutenção das dinâmicas na aldeia e do sentido de pertença no seio da comunidade.
Duas tradições: Matança e “Volta”
A quadra natalícia sempre se viveu de forma bastante intensa em Água das Casas. As festividades religiosas comemorativas do nascimento de Cristo contribuem para esta situação, mas a principal causa estava no facto de ser nesta altura que se faziam as matanças dos porcos. Era habitualmente no dia imediatamente a seguir ao Natal que se matavam os suínos, que todas as famílias criavam com o que a terra lhes dava.
Pela manhã, os homens da aldeia dividiam-se em dois grupos, formados ancestralmente, de dimensão mais ou menos idêntica – o Partido da Filhó e o Partido da Castanha Seca – e começavam a matança. Estas designações ligadas, como é bom de ver, à comida que, num tempo de dificuldades, era colocada nas adegas, para os homens petiscarem depois de abaterem os animais. Utilizando apenas o seu corpo, como se fossem forcados numa tourada, os homens apanhavam os bichos, que chegavam a ultrapassar as dez arrobas, deslocavam-nos para o exterior do curral, onde, sobre uma banca, se procedia ao sacrifício. As mulheres, munidas de alguidares de barro, aparavam o sangue, principal ingrediente das morcelas, confecionadas ainda nesse dia. Cada um dos partidos procurava terminar o abate dos animais mais cedo que o rival, sendo usual aquele que primeiro concluía a tarefa lançar um foguete.
Depois era tempo de “chamuscar e entesar” os animais, recorrendo a carquejas a arder, para, após serem lavados, abertos e pendurados, se extraírem as tripas, que as mulheres lavavam nas ribeiras ou na albufeira. No dia a seguir, depois da carne estar mais seca e fria, “desmanchava-se” e ao terceiro dia salgava-se a carne, exceto a que se destinava aos enchidos, e acondicionava-se nas salgadeiras.
A carne de porco era fundamental para a sobrevivência das famílias, distribuindo-se o seu consumo por todo o ano. Apesar de poder parecer estranho, era costume trocarem-se os presuntos por toucinho proveniente do Alentejo, que permitia temperar a panela da sopa de legumes, fundamental no regime alimentar da época.
Um aspeto igualmente digno de nota a propósito das matanças é a pesagem dos porcos. No dia da matança, ao final da tarde, todos os homens da aldeia, agora em conjunto, pesavam os animais. Cada pesa era antecedida de palpites e mesmo de apostas, intercaladas com um copo de tinto e uma cantiga à desgarrada. Todas as habitações possuem na cave uma adega (também armazém), igualmente designada loja ou “aloja”. No final, o dono do porco mais pesado era “o da bandeira”, título cujo troféu se traduzia “apenas” em dispor de mais carne na sua salgadeira.
Uma outra tradição denomina-se “Volta” e constitui um périplo dos homens pelas adegas da aldeia. O vinho não era, tradicionalmente, uma produção com grande significado em Água das Casas. Porém, muitos indivíduos procuravam produzir algum vinho, não apenas para consumo da casa, mas também para oferecer um copo aos vizinhos, amigos e outros convidados, num gesto de simpatia e hospitalidade.
Desde longa data que os vizinhos se começaram a convidar, entre si, para, ao fim da tarde, confraternizarem em torno de um copo de vinho. Como, desde longa data, a aldeia não teve uma taberna no verdadeiro sentido do termo, ainda que ali tenham existido algumas vendas de géneros alimentícios, em vez de os vizinhos se encontrarem num espaço público deste género, começaram a deambular entre as casas daqueles que se juntavam.
A pouco e pouco, institucionalizou-se a “Volta", essa peregrinação lenta de um conjunto de homens que passam pelas adegas dos elementos presentes. A designação resulta do facto de existir uma estrada circular no interior da aldeia e, no decurso desta deambulação, os homens fazerem essa volta a Água das Casas. É verdade que se bebe vinho, habitualmente sem exageros, e que durante a semana o grupo é atualmente muito reduzido, porém o mais importante são as conversas, em que se trocam ideias, em que se analisam problemas, em que se discutem soluções. Durante os períodos de festa, como os Santos, Natal, Páscoa e fins-de-semana prolongados, em que muitos naturais de Água das Casas e seus descendentes voltam à aldeia, o grupo cresce, atingindo algumas dezenas de indivíduos.
Associativismo
Imediatamente depois do 25 de Abril de 1974, alguns indivíduos de Água das Casas, percebendo que passavam a ser livres de se associarem, criaram uma comissão, que se propôs realizar uma festa de verão, com o intuito de angariar fundos que pudessem ser aplicados em melhoramentos locais.
Os primeiros festejos realizaram-se em 1976 e, desde esse ano, à exceção de dois anos da pandemia de Covid-19, todos os anos se têm repetido as festas de verão de Água das Casas, que se tornaram, nas últimas décadas, uma referência entre os festejos de verão da região.
Em 1986, numa evolução daquilo que foram as comissões de festas iniciais, constituiu-se o CSCRD – Centro Social, Cultural e Recreativo de Água das Casas. Ao longo dos anos, esta associação de Água das Casas, para além da realização das festas de verão, promoveu inúmeros convívios direcionados para a população local, para os seus descendentes e para todos aqueles que são “amigos” de Água das Casas: magustos, sardinhadas, festas de passagem de ano e múltiplas atividades desportivas, recreativas e culturais. Com a colaboração da população, foi possível edificar um conjunto de infraestruturas, determinantes para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o incremento das sociabilidades: posto médico (funcionou 2 anos no início dos anos 80), salão, bar, parque infantil, cozinha e casas de banho, capela de Santa Maria Mãe de Deus (1993), bar com esplanada, plataforma flutuante na albufeira ou Parque de Merendas do Rabaçal. O CSCRD contribuiu ainda para a melhoria dos espaços da aldeia, envolvendo-se no alcatroamento ou na redefinição dos espaços públicos, mas também na defesa das populações, com a criação do Sistema Local de Combate a Incêndios. Desta forma, aos fins de semana e nos períodos de férias, Água das Casas assume-se como uma aldeia com algumas dezenas de pessoas, que desenvolveram um sentido de pertença e que o foram passando aos mais jovens.
Recentemente, sediou-se em Água das Casas a associação Mundo em Reboliço, liderada por uma coreógrafa com origens locais, que aqui tem desenvolvido algum trabalho de mediação comunitária e cultural, e que também tem contribuído para o sentido de comunidade que caracteriza esta pequena aldeia da freguesia de Fontes, no norte do concelho de Abrantes.